sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dúvida.

A dúvida é a mãe da cagada.
Desculpem, eu não costumo usar termos de baixo calão neste que vos fala, mas não encontrei terminologia mais perfeita e com adequada contundência para expressar o meu ponto.

Admito que não há como fugir dela. Nem sempre aparece na sua frente um oráculo munido de todas as respostas. Aprendamos, então, a lidar com ela.

A certeza é forte. Uma loira alta, voluptuosa. Em seu peito, paira a tranquilidade, a segurança, a luz do saber - independente se o veredicto é negativo ou positivo. Ésquilo acorrentou Prometeu porque ele tentou levar o conhecimento inexorável dos Deuses aos mortais - olha no que deu.

A dúvida é a tábua solta da ponte. Incomoda, perturba, falseia. Deixa o cidadão vulnerável e propenso as atitudes mais tolas. Melhor não tê-la, mas se não tê-la, como sabê-la, já hipotetizava o poeta.

Essa nossa obsessão pela certeza é o que torna a dúvida tão nociva. Um perigo diante da pressa do ocidental por respostas. Queremos sempre estar no controle... bobagem. Aproveite o estímulo cerebral e pergunte ao seus poros, às pontas das sua orelhas e aos seus fluidos corporais qual a resposta certa. E não conte a ninguém.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Chuva e sol.

Não se pode gerenciar o clima, assim como as vezes não se pode gerenciar a si mesmo.
Em tempos de caos atmosférico e camadas de ozônio relutantes, no mesmo bairro, chove num canto e faz sol em outro, incontrolável, imprevisível.

"Tempo maluco!" já dizia o meu pai.
"Gente maluca!" grito eu, pasma.

Assim como nas intempéries, nas pessoas. No mesmo ser humano pode chover e fazer sol. Incontrolável e imprevisível.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Acertos.

Tá bom, tá bom. Mais dia, menos dia eu teria mesmo que fazer um acerto de contas com 2010.

Aninho carrancudo, passagem dura, período complicado mas, agora, derradeiro. Confesso, custo a reclamar. Quase nunca me atrevo a desejar que tudo seja diferente no ano seguinte, mas dessa vez me tomo em sérias dúvidas sobre o assunto.

Como conheço de cor e salteado, íntima amiga da única responsável pelos acontecimentos, darme-ei ao direito: não quero tudo isso em 2011. Ou, me auto-corrigindo, não farei tudo isso em 2011. Talvez seja a única promessa que eu seja capaz de cumprir de verdade nesse novo ano, já que a maioria das coisas coisas que fiz - e as que desfiz - não precisarei fazer ou desfazer de novo.

Pronto.
Agora já posso passar para os capítulos dieta, livros não lidos, a academia que nunca vou, os parentes que nunca visito, a pimenta ou o vinho em excesso. Essas, as promessas corriqueiras, ocupam a cabeça da gente o ano inteiro justamente para não dar espaço pras outras, aquelas que não queremos repetir. Até porque seria deprimente tirá-las da lista e não ter o que prometer de tão simples para 2012.

Vou fazer outras listas. Ainda necessito outros acertos.
Mas o que de melhor tenho para prometer para 2011 são os erros absolutamente reprisáveis de 2010.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Romance.

Sempre achei engraçada aquela escrotíssima frase "Se você quer romance, leia um livro". De tão pendente, paira o hilário. Não sei quem a cunhou - possivelmente a sabedoria popular ou algum cantor contemporâneo - mas, há algo de verdadeiro nela.

As pessoas têm uma mania interessante de procurar adjetivos e explicações freudianas para os seus relacionamentos românticos. "Fulana é ótima, tem dentro de si uma complexidade quase singela". Para os homens temos "um misto de virilidade e sensibilidade raro de se ver".

Não sei que equilíbrio se pretende buscar com essas frases. Talvez nos romances elas pareçam soar bem, inteligentes, eficientemente descritivas para o leitor. Mas ao vivo, é como se tivéssemos a obrigação de transcrever verbalmente para o nosso interlocutor o que se passa com o casal, após profunda e complexa análise científica. Ou, pior, de nos convencermos que existe uma boa explicação para isso tudo.

Não existe "porque sim" ou "porque meu coração palpita"? Ou "porque meu coração parou de palpitar"? É lindo e honesto, mas simplório demais para a era do conteúdo. Para uma época em que todos nós precisamos nos inserir, sermos aceitos por aquilo o que carregamos dentro do cérebro.

Quem falando? A dona das grandes frases pernósticas e das relativizações mais desnecessárias está em protesto pela volta da simplicidade. Do tempo em que a gente dizia o que sentia, sem tanta sinapse.

Acho que merecemos ser arrebatados com mais frequencia.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ode.

À casa da mãe.
O lugar mais "Nestlè" que existe.

Lamento que a vida demore a nos ensinar essa beleza.

Na casa da mãe acordamos cedo, sentamos à mesa para um belo café e deitamos no sofá para assistir desenho animado com um olho aberto, outro fechado.
Na casa da mãe as coisas triviais tem outro sabor. Os cobertores são mais quentes, o sabonete é mais cheiroso e o abraço parece que nunca acaba.
Na casa da mãe as histórias ressurgem, as fotos antigas divertem e o vinho deixa as horas mais longas.

Na casa da mãe nos tornamos indestrutíveis.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Partida.

Eu sempre comento, nas minhas humildes análises futebolísticas, que um time vencedor é, em geral, aquele que sabe atuar pelos flancos. Bons volantes, rápidos, agressivos e precisos. Aguerridos em seus objetivos, bem liderados. A vida é exatamente assim, e eu deveria aprender mais com isso.

A vitória corre pelas laterais, de onde se tem uma excelente visão do jogo, do posicionamento do adversário. De onde se distribui a jogada de forma planejada, avançando na direção do gol com efetividade.

Todos nós deveríamos trazer para fora das quatro linhas algumas dessas estratégias. Aliás, uma boa estratégia é o primeiro passo para o êxito naquilo o que se quer. E se esse direcionamento for guiado por essa velocidade, por essa explosão, por essa vontade de fazer dar certo, gosto mais.

Sejamos volantes das nossas vontades. Dos nossos sonhos, objetivos. Visionários, focados e absolutamente coletivos. Sejamos máquinas impulsionadoras das nossas realizações, lembrando sempre que lá na área existe alguém para emprestar o seu talento e nos ajudar a finalizar a jogada.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ira

Deveria ser proibido relacionar-se com o mundo em dias como esses. A fechadura deveria emperrar, evitando que saíssemos de casa. As teclas do computador deveriam ser sensíveis à temperatura das pontas dos nossos dedos mortíferos e nos impedir de digitar a senha do blog e dizer ao mundo que hoje não é um dia bom pra fazer aquela piadinha atravessada.

Não é por causa do tempo feio. Não é porque eu tive que trabalhar ao invés de curtir um feriadão. Nem a proximidade das eleições e a chuva verborrágica irritante dos condidatos. Nenhum motivo frugal como esses me abalaria dessa forma. Nem o Inter fora do G4.

Eu insisto em me surpreender com as pessoas. Não, isso não é uma manifestação de apreço ao lugar-comum, mas uma constatação tenebrosa de como não conhecemos as pessoas que estão tão próximas de nós. E o mais irritante disso é quando elas se revelam à você lhe entregando um cartaz escrito "eu já sabia". Erga-o com os dois braços bem altos e um nariz vermelho lustroso, refletindo aquele sorrisinho esperto do interlocutor sinistro.

Parece um conto do Stephen King, mas não é. Já imaginei aquele palhaço bizarro saindo debaixo da cama, mas quisera eu que o meu pesadelo fosse tão surreal.

Aprenda: algumas pessoas bacanas não são bacanas, elas estão bacanas. Se você mexer no pote delas ou mudar a sua parte do plano, esteja bem acordado para reagir. Ou faça como eu e escolha passar os seus dias de véspera de feriado relativizando sobre o assunto, com a mão na testa demonstrando preocupação, uma garrafa de vinho e o telefone do advogado... que está de folga e não atende ao telefone.