quarta-feira, 9 de março de 2011

Velha e repetida.

Eu já estou muito velha para certos factóides da vida. É engraçado isso, porque não me sinto assim sempre e tampouco do ponto de vista cronológico, mas esse negócio de começar a pagar as contas muito cedo deixa a pessoa meio "gasta".

É como se a gente aprendesse ou se acotumasse a queimar etapas na vida, então tudo parece mais líquido, menos travado, mais intenso, e nem todo mundo tem vocação e paciência pra compartilhar desse ritmo com você. É que nem pular o brainstom e ir direto para o insight: tá na cara que o criativo vai te olhar torto. É como apresentar o sujeito como futuro marido para os seus pais e acompanhar aquela expressão de interrogação, prova de que essa estranheza não é privilégio de faixa etária nenhuma.

Novos ou velhos, esses personagens encantadoramente acelerados acham tudo isso muito natural. Numa fração de segundos, dias ou meses, dependendo do grau de complexidade, a gente já analisou, criticou, entendeu, decidiu e fez. E, normalmente, já envolveu os protocolares e processuais nas nossas teias da objetividade, seduzidos e entregues a essa volúpia.

E isso se repete, independente do interlocutor envolvido. A gente não aprende, a gente é assim. E a gente se repete - nos erros e nos acertos. Confesso que são mais acertos, porque já que o mundo está repleto de seres sem iniciativa, a gente acaba dando uma acelerada gostosa nas coisas. Até os mais tranquilos se deixam levar, se divertem até.

Acho que deve ser divertido mesmo. Afinal, a gente não tem culpa. A gente é intenso porque, por alguma razão, as coisas na vida se encaminharam assim. Para mim, parece que deu certo... até meu pai já sente falta do brainstorm.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Falta.

Ontem faltou alguma coisa no peixe. No tempero, não sei dizer o que.
Quando isso acontece ao fogão, dá uma sensação parecida como na vida. Não dá pra "faltar" alguma coisa.

O sabor nunca pode ficar devendo, ficar quase. Como quando a gente começa um projeto espetacular no trabalho e não consegue acabar. Como quando um amigo precisa de ajuda e a gente só consegue ligar. Ou "postar" um carinho no aniversário.

É como flor que não brota.
Férias com chuva.
Namoro sem dor de estômago.
Êxito sem parabéns.
Gato sem unhas.
Vinho jovem em taça de vidro.
Música baixa.
Luz alta.

Nada pior do que o insosso.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dúvida.

A dúvida é a mãe da cagada.
Desculpem, eu não costumo usar termos de baixo calão neste que vos fala, mas não encontrei terminologia mais perfeita e com adequada contundência para expressar o meu ponto.

Admito que não há como fugir dela. Nem sempre aparece na sua frente um oráculo munido de todas as respostas. Aprendamos, então, a lidar com ela.

A certeza é forte. Uma loira alta, voluptuosa. Em seu peito, paira a tranquilidade, a segurança, a luz do saber - independente se o veredicto é negativo ou positivo. Ésquilo acorrentou Prometeu porque ele tentou levar o conhecimento inexorável dos Deuses aos mortais - olha no que deu.

A dúvida é a tábua solta da ponte. Incomoda, perturba, falseia. Deixa o cidadão vulnerável e propenso as atitudes mais tolas. Melhor não tê-la, mas se não tê-la, como sabê-la, já hipotetizava o poeta.

Essa nossa obsessão pela certeza é o que torna a dúvida tão nociva. Um perigo diante da pressa do ocidental por respostas. Queremos sempre estar no controle... bobagem. Aproveite o estímulo cerebral e pergunte ao seus poros, às pontas das sua orelhas e aos seus fluidos corporais qual a resposta certa. E não conte a ninguém.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Chuva e sol.

Não se pode gerenciar o clima, assim como as vezes não se pode gerenciar a si mesmo.
Em tempos de caos atmosférico e camadas de ozônio relutantes, no mesmo bairro, chove num canto e faz sol em outro, incontrolável, imprevisível.

"Tempo maluco!" já dizia o meu pai.
"Gente maluca!" grito eu, pasma.

Assim como nas intempéries, nas pessoas. No mesmo ser humano pode chover e fazer sol. Incontrolável e imprevisível.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Acertos.

Tá bom, tá bom. Mais dia, menos dia eu teria mesmo que fazer um acerto de contas com 2010.

Aninho carrancudo, passagem dura, período complicado mas, agora, derradeiro. Confesso, custo a reclamar. Quase nunca me atrevo a desejar que tudo seja diferente no ano seguinte, mas dessa vez me tomo em sérias dúvidas sobre o assunto.

Como conheço de cor e salteado, íntima amiga da única responsável pelos acontecimentos, darme-ei ao direito: não quero tudo isso em 2011. Ou, me auto-corrigindo, não farei tudo isso em 2011. Talvez seja a única promessa que eu seja capaz de cumprir de verdade nesse novo ano, já que a maioria das coisas coisas que fiz - e as que desfiz - não precisarei fazer ou desfazer de novo.

Pronto.
Agora já posso passar para os capítulos dieta, livros não lidos, a academia que nunca vou, os parentes que nunca visito, a pimenta ou o vinho em excesso. Essas, as promessas corriqueiras, ocupam a cabeça da gente o ano inteiro justamente para não dar espaço pras outras, aquelas que não queremos repetir. Até porque seria deprimente tirá-las da lista e não ter o que prometer de tão simples para 2012.

Vou fazer outras listas. Ainda necessito outros acertos.
Mas o que de melhor tenho para prometer para 2011 são os erros absolutamente reprisáveis de 2010.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Romance.

Sempre achei engraçada aquela escrotíssima frase "Se você quer romance, leia um livro". De tão pendente, paira o hilário. Não sei quem a cunhou - possivelmente a sabedoria popular ou algum cantor contemporâneo - mas, há algo de verdadeiro nela.

As pessoas têm uma mania interessante de procurar adjetivos e explicações freudianas para os seus relacionamentos românticos. "Fulana é ótima, tem dentro de si uma complexidade quase singela". Para os homens temos "um misto de virilidade e sensibilidade raro de se ver".

Não sei que equilíbrio se pretende buscar com essas frases. Talvez nos romances elas pareçam soar bem, inteligentes, eficientemente descritivas para o leitor. Mas ao vivo, é como se tivéssemos a obrigação de transcrever verbalmente para o nosso interlocutor o que se passa com o casal, após profunda e complexa análise científica. Ou, pior, de nos convencermos que existe uma boa explicação para isso tudo.

Não existe "porque sim" ou "porque meu coração palpita"? Ou "porque meu coração parou de palpitar"? É lindo e honesto, mas simplório demais para a era do conteúdo. Para uma época em que todos nós precisamos nos inserir, sermos aceitos por aquilo o que carregamos dentro do cérebro.

Quem falando? A dona das grandes frases pernósticas e das relativizações mais desnecessárias está em protesto pela volta da simplicidade. Do tempo em que a gente dizia o que sentia, sem tanta sinapse.

Acho que merecemos ser arrebatados com mais frequencia.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ode.

À casa da mãe.
O lugar mais "Nestlè" que existe.

Lamento que a vida demore a nos ensinar essa beleza.

Na casa da mãe acordamos cedo, sentamos à mesa para um belo café e deitamos no sofá para assistir desenho animado com um olho aberto, outro fechado.
Na casa da mãe as coisas triviais tem outro sabor. Os cobertores são mais quentes, o sabonete é mais cheiroso e o abraço parece que nunca acaba.
Na casa da mãe as histórias ressurgem, as fotos antigas divertem e o vinho deixa as horas mais longas.

Na casa da mãe nos tornamos indestrutíveis.