quarta-feira, 24 de setembro de 2008

mulheres (2003)

Para disputar uma vaga no selecionado rol das mulher que exigem demais, você necessita de alguns predicados. Ter a sua profissão e gostar muito dela – é fundamental você ser capaz de sobreviver fazendo aquilo que escolheu. Ter a sua casa, mesmo que alugada, as suas coisas, o sofá que você escolheu. Ter o direito adquirido de ir e vir na hora que bem entender, com quem e pra onde achar que deve. Separar o lixo seco do orgânico, contribuindo com as futuras gerações. Estudar, ler, viajar e realizar outras atividades, não necessariamente onerosas, para se atualizar e reciclar os assuntos. Metade dessas premissas lhe garantem o entendimento deste texto. Por favor, as mulheres homossexuais que me perdoem: vocês são as mulheres mais felizes do mundo e não estão contempladas neste estudo de entropia social e conjugal feminina.

Fenômeno social concreto observado: a ascensão da mulher, independente financeiramente, chefe de família, mãe solteira, que cumpre jornada de trabalho tripla, faz mestrado, doutorado, ocupa altos cargos e, eventualmente, fuma charuto em confrarias. Dessas tantas mulheres, boa parte delas já aprendeu, faz tempo, a abrir sozinha o vidro de conserva, a trocar a lâmpada queimada e a fazer o seu imposto de renda. Que pena, foi-se o romance. Hoje, os predicados masculinos precisam de muito mais sofisticação do que simplesmente abrir a porta do carro ou pagar a conta do restaurante. Essa mania de engrandecimento da mulher das últimas décadas provocou uma desordem social jamais imaginada, nem pelos filósofos e nem pela Faith PopCorn. Por que não deixaram tudo como estava? Os homens no comando, provedores da casa, famílias com filhos, mãe e pai na mesa de jantar? Foi assim que aprendemos, desde sempre, desde os nossos avós. Essa mania do ser humano... eterno insatisfeito. Temos uma geração de mulheres cardíacas, estressadas, hipertensas, que gritam no trânsito e moram em apartamentos brancos e bem decorados, com cheiro de alecrim da Le Lis Blanc. Sem toalha molhada sobre a cama, sem futebol, sem queijo derretido grudado na torradeira. Elas têm trabalho, casa, comida, teatro, cinema, amigos, jantares, salário, mas estão sozinhas no aspecto conjugal do vocábulo. Se ponderarmos todas essas variáveis, podemos entender porque essas mulheres passaram a exigir muito mais dos seus parceiros para que estes possam assim se considerar um dia. Que ele seja tão ou mais bem-sucedido; tão ou mais culto; tão ou mais informado; tão ou mais globalizado. E daí fica difícil. Se considerarmos ainda que, no Brasil, a quantidade de mulheres é superior à de homens, o contingente de possibilidades fica um pouco mais limitado.

Ainda acho que as pessoas são capazes de amar umas às outras. As pessoas estão tão a fim de amar que amam várias pessoas, e não pra vida toda. Vou chover no molhado: estamos vivendo em um contexto altamente frenético e competitivo. Individualista, isso é inegável. Cada vez mais o “eu” ganha força e os livros de auto-ajuda estouram as edições. Diante disso, amor eterno é um “ativo-passivo”, está em desuso. Então temos: muito mais mulheres do que homens, mulheres mais exigentes e uma sociedade inteira se amando, sem compromissos formais, muitos divórcios e outras tantas manifestações de relacionamento bem mais originais, eu diria. Pensando fria e matematicamente, temos um diagnóstico avassalador, quase desesperador: a solidão eterna para as mulheres que exigem demais. Elas buscam relacionamentos, buscam laços – um comportamento muito típico do ser humano, que não sabe viver sozinho – mas está difícil encontrar alguém que preencha as lacunas. Dependendo do ponto de vista, uma mulher exigente passa a ter duas possibilidades pontuais - um: mudar de atitude e rever o seu padrão de exigência – daqui a pouco, aquele auxiliar de contabilidade que usa camisa social de mangas curtas não é tão mal assim, além do que, a mãe dele faz um doce de abóbora cristalizada que é uma beleza! Ou, dois: se conformar em encontrar em várias pessoas diferentes aquilo que ela buscaria em um único relacionamento. Eu explico – antes que me apedrejem em praça pública por apologia à poligamia - não é nada disso. A nossa vida é formada por vários pedacinhos que se complementam ao longo do caminho, como em um ciclo - o bom e velho ciclo da vida. A gente nasce, cresce e morre, e nesse ínterim, fazemos a nossa interferência particular na vida de uma porção de pessoas. Existe um núcleo - o centro, o equilíbrio - que em geral é onde ficam a nossa família, os nossos valores, nossas aspirações – são coisas menos flutuantes, mais sólidas, que são as responsáveis diretas pela nossa formação de caráter, pela estrutura que vamos levar para o resto da vida. Ao redor deste núcleo, orbitam uma série de outros fatores, como amigos, amores, profissão. Estes são mais “vem-e-vão”, mudam com mais freqüência, e em geral levam algumas coisas embora enquanto trazem outras. Então, no centro, a estrutura; ao redor, o aprendizado. E assim vai girando a nossa máquina.

Eu falava sobre a conformidade da mulher exigente, que se vê obrigada a buscar, nessa órbita tão farta de possibilidades, as diversas soluções para algo que já não tem mais uma única solução – pelo menos pra ela, mulher exigente. Um amigo para carregar as sacolas pesadas do super; um amante para os momentos em que a libido está indisciplinável; várias amigas para dar risadas, comer torta de chocolate e liberar a dopamina acumulada; um cachorro macho, para lhe dar carinho e afeto sem pedir nada em troca, que quando você dá um grito, ele baixa a cabeça, abana o rabo e excita em você todo o seu poder de comando; um projeto especial no trabalho, que vai te exigir algumas horas extras e um reconhecimento intelectual especial – afinal, quem ganha aumento por esforço extra é peão e não você, mulher exigente.

Os modelos é que estão errados.

Eis ai uma boa explicação – ou uma boa desculpa. E tudo continua sendo culpa da mulher inquieta, que insistiu em roubar a poesia da sociedade patriarcal machista e foi à luta – será que tudo começou com a queima dos sutiãs? Bem, deixando os clichês de fora, o assunto é muito sério. Os modelos de relacionamento que insistimos em perseguir são verdadeiramente lindos, ainda estão nos filmes e nos livros. Mas a maioria está na memória das nossas avós ou tias velhas. Eu tenho uma amiga que sempre me comenta sobre os relacionamentos aparentemente perfeitos que ela acompanha – como expectadora. Fulana casou com o fulano, que ela namora desde os dezesseis. Compraram uma casa linda, os dois têm bons empregos, viajam duas vezes por ano. Agora que ela completou trinta e dois anos e eles vão ter um filho, conforme planejado desde sempre. A fulana está com depressão, faz hidroginástica desesperadamente, e só pensa na frase célebre proferida pelo fulano: “Vê se depois de ganhar o bebê na vai ficar gorda e caída, por favor, fulana!”. É... os modelos... tudo parecia perfeito, dentro do planejado.
Aqueles modelos que a gente conhece não se aplicam mais. Eles não estão errados, nós é que estamos insistindo em usar os modelos certos nos contextos errados. É como ir de longo Carlos Tuvfeson num casamento ao meio-dia – você vê, até o meu exemplo tem um “q” de recalque. Sim, eu queria ter um marido perfeito, que me amasse, gostasse dos meus defeitos e viesse atrás de mim depois de uma briga pra me dizer isso na frente de todo mundo – uma coisa meio Harry e Sally, sabe? Eu queria chegar em casa e ter alguém inteligente, complacente, maduro, bem-sucedido, analisado, carinhoso, meigo, de chinelos, assistindo Jornal Nacional no sofá com o gato no colo, me recebendo com um sorriso, um beijo e a célebre pergunta: “como foi o seu dia, meu bem? Vamos comer um sushi ali no Saikô?”... Opa, opa... esqueci que eu marquei um pôquer com as gurias... pronto, o surto passou. Cheguei em casa, tomei uma ducha correndo, dei comida pro gato e já tô saindo.

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