quarta-feira, 24 de setembro de 2008

moral da história (2006)

Esses dias eu ouvi uma frase muito interessante (na TV, por mais incrível que isso possa lhe parecer) e é sobre ela que eu resolvi escrever hoje. O ator negro, recém saído da cadeia, detido durante algumas horas por causa de um surto de fúria, diz aos céus, diante do ator branco que pagou a sua fiança: “Deus, me dê forças para aceitar aquilo que eu não posso mudar”. Vamos tirar Deus da parada e desenvolver a respeito – questões religiosas estão muito além dos nossos domínios mundanos.

Ao longo dos 365 dias do ano, sem contar os bissextos, pra não atrapalhar a conta, e subtraindo as horas de sono, são inúmeras e incontáveis as vezes em que deveríamos apelar para essas forças ocultas em busca de serenidade. Para nos defrontarmos com pessoas, situações e competições escandalosas e, mesmo assim, ainda sermos aceitos no convívio social – regime semi-aberto ou focinheiras de couro sintético não serão aceitos como convívio social – precisamos lançar mão de subterfúgios interessantes, legais, ilegais, naturais, sobrenaturais ou paranormais, espirituais e até medicinais tarjados.

Como exercício, passei a repetir a frase em questão quase que diariamente pra mim mesma, como um tipo de mantra. Pensei até em tatuá-la de trás pra frente, é claro, para que o reflexo no espelho todos os dias de manhã seja suficiente para me auto-sugestionar e passar um dia mais conformado. Não, eu nunca cheguei nem perto de ser encarcerada pelos meus descontentamentos incontidos, mas vez por outra imagino cenas de horror e sangue, num misto de sarcasmo e impotência que quase me corrompe. Exageros engraçadinhos à parte, entoar o mantra é uma forma interessante e barata de nos mantermos longe das forças do mal.

Seu namorado pediu que você o aceite como ele é – não é romântico, não manda flores, não pratica aquelas pequenas surpresinhas que fazem você se sentir a melhor de todas, mas é honesto, generoso e lhe ama profundamente. Na noite do seu aniversário, fez uma pizza, abriu um Malbec de trinta reais e lhe disse, com a taça ao alto: “ao meu amor, que está de anos em festa”. Espero que você tenha se lembrado de evocar o novo mantra da mulher moderna. Se não sentiu necessidade, comunico que você está a dois passos à frente da média das mulheres na escala evolutiva. Parabéns. Por isso e pelo seu aniversário.

Seu colega de trabalho, teoricamente seu “par” nos objetivos comerciais da sua equipe, combinou de acompanhá-la à reunião com o novo cliente no seu primeiro dia oficial de trabalho. Ele sabe o caminho, você não, mas cedinho da manhã você está lá, plantada no local marcado, ainda com um sorriso, entusiasmada com seu primeiro dia de trabalho, apesar do atraso de quase meia hora do seu “par teórico”, que prometeu guiá-la. Ele aparece dizendo que vocês precisam correr para não se atrasarem e dispara na sua frente, ultrapassando o sinal vermelho de um simpático cruzamento. Nesse momento, a baladinha George Michael que você escuta no carro ganha um novo refrão: “forces... forces to accept, to acceeeeeeept... tiu-ru-ru...”.

Ta bom, ta bom. Diga pra mim que eu sou a única descompensada aqui! Faça-me crêr que você nunca visualizou um acontecimento terrível para aquela colega de trabalho módulo Barbie, que faz chapinha todos os dias, usa pó pra parecer bronzeada e deixa O Diário de Bridget Jones sobre a mesa, humilhando intelectualmente todos os seus colegas de setor. Um choque elétrico patrocinado pela Taiff seria mesmo inimaginável pra você? Talvez ela nem tenha lhe feito nada de mais, tirando a vez em que passou na sua frente na máquina de café e serviu para si a última dose de capuccino, ou quando ela votou pela extinção dos feriados prolongados na última assembléia dos funcionários porque não queria trabalhar 12 minutos a mais todos os dias para compensar as sextas e segundas-feiras emendadas. Poupe-me.

Pior do que a raiva manifesta é o descontentamento contido, latente, que fica na superfície, mas não chega a se projetar. Aquele que dá dor de garganta, que contrai os músculos e faz a gente suar – vou patentear essa idéia nas academias como uma nova técnica de emagrecimento com um nome oriental qualquer. A discordância, a discussão sem conclusão ou mesmo a “pé-esquerdice” de um dia qualquer podem levar o sujeito a visitar a sua Fossa das Marianas em segundos. Por isso, eu aconselho: evoquem a frase do ator negro que passou um dia no xilindró. Ele certamente teve tempo para refletir e chegar a uma sentença tão interessante e, porque não, eficaz.

E como todo texto precisa ter moral da história, eu vos digo e repito: você já está exercitando a nobreza de aceitar no momento em que se propõe a repetir a sentença milagrosa, portanto, deixe de ser trancado e aprenda a receber com mais entusiasmo os aprendizados que o próximo pode lhe oferecer, e de graça. Se não for possível, faça como eu: escreva a respeito. É terapêutico e ainda faz os amigos rirem.

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